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Misericórdia: 100 Anos, Uma Vida












António Ferro completa hoje 100 anos e a Misericórdia-Obra da Figueira assinalou o seu aniversário com um almoço especial, na presença do Provedor, Dr. Joaquim de Sousa, e outros membros da Mesa Administrativa, quadros da Instituição, vários familiares chegados e, claro, os utentes do lar Silva Soares.
No final do almoço, o amigo Nuno Silva, também ele utente do Lar Silva Soares, leu um soneto escrito especialmente para o aniversariante, que publicamos.

Cem Anos!!!

António Amaro Ferro faz cem anos!
Cem anos duma vida muito intensa...
Quem o vê tão presente, assim, não pensa
Como passou por tantos desenganos!...

São muitos os seus dotes bons, humanos,
E basta que alguém esteja na presença
Desta figura ímpar, p'ra que vença
A PAZ na relação entre mundanos...

Cem anos, oh meu Deus, que bela idade!
Uma velhice, assim, é mocidade...
Uma virtude que jamais se ilude...

Que muitos anos mais ainda goze
P'ra que possa chegar aos cento e doze...
Quantos a avó fez... E com saúde!

Foi depois projectado um mini-filme, preparado na Instituição, com fotografias retiradas dos álbuns do Sr. Ferro, cantaram-se os tradicionais "parabéns a você", o aniversariante apagou as velas e o almoço terminou com a fadista Marisa, gentilmente trazida até nós pela Associação Barca da Vida, que interpretou "a capella", em jeito de fado, uma versão especial de "Parabéns".

Em colaboração com o seu patrocinador oficial, o Casino da Figueira da Foz, a Secção de Orientação organiza no feriado de sexta-feira, 15 de Agosto, nos jardins do Palácio Sotto-Mayor, uma prova aberta de divulgação da modalidade, destinada a todas as idades.

O evento integra o conjunto de iniciativas de animação que a Sociedade Figueira Praia está a promover no Palácio, em complemento da Exposição “Sentidos de Estado”, do Museu da Presidência da República. Patente até 5 de Outubro, esta Exposição constitui já um dos grandes êxitos, senão o maior, da presente época balnear.

Misericórdia: António Ferro faz 100 anos


Quem entra no quarto 103 do Lar Silva Soares da Misericórdia-Obra da Figueira não tem a noção de entrar num alojamento de um idoso à beira de completar 100 anos. Tem, antes pelo contrário, a sensação de ter tido acesso a um impecável quarto de um homem solteiro, extremamente organizado, asseadíssimo, bem cheiroso e cheio de recordações de família. Sobre a cómoda, o armário da televisão e a pequena mesa de sala de estar, agrupam-se fotografias de várias épocas e várias gerações: os pais, as filhas, os netos e os bisnetos. Numa das paredes do quarto, uma fotografia da filha Maria Olímpia, falecida com apenas 21 anos de idade de uma “complicação pós-parto”. Ao fim de todos estes anos António Ferro olha ainda com grande melancolia a fotografia daquela bela mulher.

Ao entrar sinto-me um pouco embaraçada, peço desculpa por lhe ter interrompido o descanso a meio da tarde, ainda por cima sem avisar. Cavalheiro, como sempre, António Ferro levanta-se imediatamente do sofá onde se encontrava recostado para me cumprimentar (não dispensa dois beijinhos). "Ora essa, minha senhora, é um prazer recebê-la. Tenho todo o tempo para descansar". E ao ver a minha curiosidade a olhar as fotografias logo vem com as legendas detalhadas. Ao fim de algum tempo diz "A senhora importa-se que eu me sente? É este pé, sabe? Está a ficar escuro com as varizes, quer ver? Segunda feira tenho uma consulta com um cirurgião, mas se ele me quiser operar, uhm uhm.." diz, abanando a cabeça. "Ó Sr. Ferro não se preocupe, isso não é com certeza nada de grave. A minha mãe tem só 88 anos e tem os dois pés assim há vários anos".

A conversa fluiu com uma facilidade notável. Dono que uma memória claríssima, apenas o ouvido um pouco duro o impede de dar resposta imediata a qualquer das perguntas que lhe faço. Pela sua mente e pela minha imaginação perpassam, com um colorido nítido, cenas de uma infância feliz mas de educação rigorosa passada em Castelo Branco; uma juventude na Figueira entre os cavalos que ensinava em Artilharia 2, as namoradas da terra e as espanholas que intercalava no Verão; a sova de cavalo-marinho que deu, ali ao pé do mercado, ao homem que lhe roubou a sua primeira mulher; os quatro anos de Angola e o ano e meio de Moçambique; o casamento com Maria das Dores que duraria 56 anos "em que não houve nunca uma sombra de desavença"; os onze anos em que foi gerente da Casa de Saúde da Figueira onde fez muitos amigos e os três anos e meio em que foi Presidente da Casa do Povo de Maiorca, onde teve que “com muita educação mas também com muita firmeza, pôr ordem na casa porque os médicos faziam o horário que queriam sem atenderem às regras estabelecidas e às necessidades dos utentes”.
E a preto e branco, muito mais preto que branco, a dor sentida com a perda da filha Maria Olímpia.

Filho de um monárquico de Cavalaria, compulsivamente reformado aquando da implantação da República, António Ferro é um dos quatro sobreviventes de 20 filhos que a mãe teve antes do pai morrer aos 44 anos de idade. Apreciador da beleza feminina e namoradeiro por natureza, dá especial valor à gentileza e à boa educação e cita o seu avô, “educado no seminário, que só não foi padre por ter contraído tuberculose”, que dizia que é "ao jogo e à mesa que se conhecem as pessoas educadas".

Quando em 1950 um camião de peixe o "abalroou" à saída de Maiorca quando seguia para a Figueira no seu "cociolo" e o atirou contra uma árvore, julgou que seria esse o fim da sua vida. O acidente havia de provocar estragos que o manteriam hospitalizado 45 dias, mas que afinal, contra todas as previsões, não deixaram sequelas graves.

Utente do Lar Silva Soares desde 1999, diz-se satisfeito com as instalações, o tratamento e a alimentação, mas admite que as instituições deste tipo, se a pessoa não se cuida, embrutecem. E acrescenta, com sentido de humor, “Bom, para não falarmos dos que já entram para cá brutos…”. Sai pouco do quarto, praticamente só para as refeições, para uns pequenos passeios para manter o corpo em movimento ou quando ao fim de semana a família o vem buscar para dar uma volta. Até há pouco tempo lia bastante. Agora, “com a vista mais fracota”, entretém-se vendo televisão ou, simplesmente, olhando os álbuns de fotografias e recordando a sua longa vida. E dá muito valor a dois dedos de conversa “com pessoas interessantes”, porque “conversa fiada” não faz o seu género.

Ao fazer 100 anos, António Ferro diz sentir-se bem física e mentalmente e preparado para viver mais uns quantos.


Alice Mano Carbonnier para InfoAssociadas



Na Sexta-feira, dia 8 de Agosto (08/08/08), a Misericórdia-Obra da Figueira celebra, no Lar Silva Soares, ao almoço, o centenário do Sr. António Ferro, na presença do Provedor, elementos da Mesa Administrativa e alguns familiares chegados. No decorrer do almoço haverá também um pequeno número de animação.

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